Nem lembro mais quando li este livro, e escrevi o resumo. Ultimamente leio mais que o habitual, e muito menos do que gostaria. Às vezes penso que perco muito tempo na frente do computador, tempo que seria melhor empregado na leitura dos livros que aguardam na fila; mas quando encontro uma obra há muito esgotada na versão impressa, com exemplares nos sebos beirando os três dígitos no preço, e disponível na
rede, decido que estou parcialmente perdoada. Ouvi falar do livro algumas vezes, no entanto, sempre deixava para comprar ou procurar depois. Depois do quê não sei. Maternidade é um assunto complicado, um monte de mitos e dogmas em cima, dá aquela falsa idéia de que as coisas sempre foram assim, mas sempre duvidei das palavras das mães que falam que a maternidade é a coisa mais maravilhosa da vida, acho um tanto exagerado para ser verdade, e todo mundo sabe como podem ser tensas e conflituosas as relações entre pais e filhos, no fim, acaba sendo hipocrisia dizer que o afeto não fica abalado diante de tantos conflitos. O livro chama-se "Um Amor Conquistado - O Mito do Amor Materno". A autora? Elisabeth
Badinter, seu livro é fruto de muitas conferências que ela fez no final dos 70. O recorte? História das mulheres francesas especialmente do século XVIII, vistas sob a ótica da maternidade, e de como este conceito se moveu ao longo da história francesa, e de quebra, da história ocidental também.
O livro discute essencialmente a existência do "instinto" materno, e a evolução do conceito de maternidade ao longo do século XVIII até o XX. O "instinto" seria algo comum e universal a todas as mulheres, igualmente distribuído no tempo e no espaço da história humana; o que não se verifica no caso do instinto materno, como demonstra a autora, que refaz o percurso das práticas de criação das crianças nos últimos séculos, organização familiar, papéis de mulheres/homens, visões filosófica e teológica da criança e da mulher. Badinter se volta para as visões de Aristóteles, que acreditava que o homem tem toda autoridade sobre seus filhos, escravos e mulheres, pois o homem era mais próximo do divino, e os demais são incapazes. Na teologia cristã, a total submissão da mulher é logo anunciada no Gênesis, mais que submissa, a mulher é fonte de todo o mal para o homem; por sua culpa ele foi expulso do paraíso. No absolutismo político francês, há a analogia entre as figuras do Rei, deus, pastor e pai, pois todos exercem autoridade sobre os seres mais fracos - e inferiores.
Nesse imbróglio todo, a existência do amor não era encorajada para a concretização do casamento, ao contrário, para a Igreja só era lícito fazer sexo sem prazer; e mais importante para a realização de um matrimônio era o pagamento do dote (pais abastados garantiam o dote das filhas às expensas da herança não herdada pelo primogênito, que por sua vez caçava seu próprio dote, já as moças menos favorecidas precisavam trabalhar para pagar seu dote, e encontrar um homem que "valesse" o quanto elas tinham para pagar), obviamente, neste contrato comercial, não havia muito espaço para o amor, de forma que não era pré-requisito para o casamento. Nesta organização do matrimônio, logo virão os filhos, que serão concebidos e gerados neste clima. Para entender isso, são visitadas teorias sobre a infância correntes na época. No século XVII, com idéias vindas de santo Agostinho, há o "pecado da infância", pois toda criança é inescapavelmente fruto do sexo, do pecado original, é um ser negativo e corrompido pela sua natureza, e somente uma educação repressiva pode eliminar seus traços negativos; a recomendação para os pais é tratarem seus filhos com frieza, pois a ternura é traduzida como frouxidão, que conduz ao pecado. Descartes também considera a infância como fraqueza de espírito, pois todo o entendimento do mundo infantil está sob a dependência do corpo.
Com estas idéias e recomendações, no século XVII a prática corrente dos pais era deixar seus filhos com amas-de-leite (como sempre acontece, a moda é lançada pelas elites e imitadas por todos os estratos subseqüentes), entre as mulheres pobres, deixar seu filhos com as amas mercenárias é crucial para a sobrevivência delas; já entre as mulheres abastadas, da nobreza e grande burguesia, não há este impedimento econômico, a contratação de amas-de-leite (a criança recém-nascida é entregue para estas amas, horas depois do nascimento, e levadas para o campo, de onde só retornam 6 anos depois, isto é, se conseguem sobreviver, pois a mortalidade infantil é extremamente alta, a maioria das mães não se interessa pelos filhos, sequer comparecem ao velório deles, em alguns casos são claramente abandonadas, e aqueles que conseguem sobreviver, vão para a casa dos pais em péssimas condições de saúde) é vista do Badinter somente como um meio de se livrar dos filhos, da enfadonha tarefa de cuidar de crianças quando têm coisas mais agradáveis para fazer, pois a criança é um ser sem nenhuma importância para a sociedade, para a vida pessoal dessas mulheres, que por sua vez, são tachadas por Badinter como egoístas, desinteressadas e indiferentes à vida ou morte de seus filhos. Com a organização familiar moldada nestas condições, parece improvável falar de amor materno instintivo universal. Como dito anteriormente, o papel das amas termina por volta de 6 anos, e na casa dos pais abastados, logo a criança recebe o cuidado de um preceptor (observadores da época criticam os pais que escolhem com mais cuidado as pessoas que irão adestrar seus cavalos e cães do caça, do que o preceptor de seus filhos), que se ocupará dos rudimentos de educação e manterá os pais longe do convívio com seus desagradáveis filhos. Quando as crianças chegam aos 10 anos, os pais lançam mão de outro artifício para se livrar dos filhos, e os mandam para internatos, e no caso das meninas, o convento, de onde só saem de lá casadas.
Este estado de coisas começa a mudar por volta de 1760, quando se começa a desenhar a ideologia (aqui no sentido forte) do amor materno, com promessas iluministas de felicidade às mulheres que assumirem o papel materno, a fim de diminuir os índices de mortalidade. Esta ideologia está assentada em postulados econômico (a população gera riquezas e garante o poderio militar do Estado) e filosófico-iluminista, em que a busca primeira do ser humano é a felicidade. É na microssociedade que é a família onde se espera encontrar a felicidade, e começa a era do casamento por amor, a liberdade de escolha do cônjuge valia para ambos. Nesta vidinha marital feliz, seu ponto culminante só pode ser a procriação, pois a prole será tão amada quanto o casal se ama mutuamente. Badinter considera todo esse processo no século XVIII como um movimento para convencer as mulheres a se ocuparem pessoalmente dos seus filhos. Se as promessas de felicidade não são suficientes, os homens malvados idealizadores de toda essa patacoada, lançam mão de ameaças (o que prova mais uma vez que o amor materno é só mais uma lorota) para mães que se recusam a ocupar este novo papel, principalmente no que concerne ao aleitamento materno, pois as mulheres que se recusam a amamentar seus rebentos sofrerão revoltas e punições de deus e da natureza. A boa mãe é logo identificada com a santa mulher, elas são induzidas a acreditar que a maternidade é extremamente gratificante. Como já sabemos, o amor materno não tem nada de natural, e muitas mulheres recusam a acatar esta nova ordem social, e por isso são mal vistas, outras se tornam mães sem desejar, para evitar aborrecimentos com cobranças. Logo, os critérios de boa mãe se afrouxam para a coabitação: mães que não se interessavam pessoalmente por seus filhos, mas os conservavam em suas casas, sob cuidados de babás e amas-de-leite ainda são consideradas boas mães. Mas os critérios logo mudam, no século XIX exigia-se das mães sacrifícios, a lista de deveres só aumentava, a mãe deveria amamentar e também cuidar da educação moral das crianças, pois a mulher é uma "professora nata", a instrução feminina passou a ser vista como necessária (depois de séculos de negação do saber às mulheres) para o bem-estar moral da prole.
Nesta simbiose entre mãe-filho, a figura paterna sofre um recuo, o pai simbólico, detentor de autoridade e da Lei, é mais importante que o pai real, aliás, este não devia se interpor na relação sagrada de mãe-filho. Até chegarmos a noção-século XX do pai provedor e ausente pelo próprio ritmo de vida para garantir a subsistência material da família; passando pelo "patriarcado de Estado", mais presente nas classes baixas, onde o Estado, guarnecido pela lei, poderia punir pais que maltratavam crianças, e pela escola, que fornecia educação moral. Também no século XX a teoria freudiana só veio a complicar a vida da mulher-mãe, que como já não bastassem todos os encargos da maternidade, também era responsável pelo inconsciente dos seus filhos, e eventualmente culpada caso as coisas dessem errado. A mãe era tida como causa imediata de qualquer perturbação psíquica da criança. E uma boa mãe era aquela que combinava características interligadas de passividade, masoquismo e narcisismo, "mulher feminina como a interação harmoniosa das tendências narcísicas e a aptidão masoquista para suportar o sofrimento, que é compensada pelas alegrias da maternidade." Na segunda metade do século XX, com os raios luminosos do feminismo no horizonte desta boa-mãe-masoquista, ela é tentada a sair do lar, dos filhos (que são fontes de responsabilidade e culpa), especialmente a mulher com acesso à instrução, que não tem necessidade econômica do trabalho, pode se realizar pessoalmente com uma carreira profissional, que é muito mais interessante que cuidar de crianças, ou nas palavras de Badinter, "quando tem ambições (mundanas, intelectuais ou profissionais, como acontece hoje) e meios para realizá-las, uma mulher é infinitamente menos tentada do que outras a investir seu tempo e sua energia na criação de filhos". Badinter lança uma comparação entre as mulheres do século XVIII, que não tinham preocupações financeiras e gozavam de uma vida material confortável e se recusavam a cuidar pessoalmente de seus filhos, porque preferiam viver sob seus próprios interesses, acusando-as de insensíveis, egoístas, indiferentes, e as mulheres de classe média do século XX, que também não têm obrigação econômica de trabalhar fora de casa, e mesmo assim o fazem, por "realização pessoal", deixando a prole sob cuidados de terceiros, em creches. A autora argumenta que os dois séculos de "responsabilização" das mães modificaram as atitudes, e que as mães que colocam seus interesses acima dos interesses das crianças não são vistas mais como "patológicas", e "desnaturadas". Justamente isso, as mulheres do séc XVIII que deixavam seus filhos com amas mercenárias também não eram vistas como aberrações, ao contrário, estavam dentro da norma.
No primeiro momento, discordei muito da parte final do livro, me pareceu que a opção por não ter filhos não era considerada uma opção tão válida quanto a mulher se dedicar integralmente à prole, ou tecer arranjos com o parceiro e exercer uma profissão. Depois entendi que o ponto dela, a não existência do amor materno como algo instintivo; este amor não existe, o que existe é o amor pelos filhos construído pela convivência, e neste ponto, o amor paterno se equipara ao amor materno, e Badinter enxerga que é no comprometimento igualitário dos pais no cuidado com os filhos que reside a verdadeira emancipação feminina, quando a mulher se livrar dos encargos extras e dividi-los com o parceiro, ela poderá ter atuação profissional e política consistente.
Sempre tive muitas ressalvas quanto ao movimento feminista, mesmo considerando-o extremamente necessário, depois que entendi que o movimento é super fragmentado, e tive um contato superficial com algumas vertentes, concordando e discordando, minha maneira de pensar mudou bastante (tão bom ter a liberdade de mudar de idéia!). Atualmente penso que a verdadeira emancipação feminina não consiste nas mulheres fazerem tudo o que os homens fazem (e de salto, como elas gostam de exibir suas varizes e joanetes), e sim quando os homens fizerem tudo o que as mulheres fazem, com igualdade na responsabilidade, sem a desculpa de "estou só ajudando". E era isso que a Élisabeth Badinter falava na época em que era eu era um bebê...